Fazemos arte das sobras
que sobram no mundo.
Somos partes. Pés e mãos.
Travados ao chão imundo
de uma peça temporal ilusória,
trajada de políticas e dogmas.

Somos um astro fora de órbita.
Um cometa sem trajetória.
Fardados pras guerras
dos que pensam que não sobram.

Nascemos fadados.
Armados com flores e blindados.
Jogados no escuro vazio e forçados
a dar votos aos desacreditados.

Ora somos amordaçados.
Ora somos açoitados.
Ora somos despelados.
Ora somos escalpelados.
A horas, somos despedaçados
pelas mãos dos mal falados.

Somos o sujeito das frases,
no pretérito mais-que-perfeito ou no
futuro que nem veio a ser feito e já passou.
Apenas esquecemos que, entre
substantivos e adjetivos,
vivemos o presente do indicativo.

Somos irmãos, amigos, seres,
vivos, arquivos de reposição.

Somos sobras, nas páginas de livros,
de um universo em expansão.